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A Ascensão de Judas

24/06/2002

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- E aí seu Carlos, como vai o nosso Judas? - perguntou Tonho.

- Ah! Esse ano vai ser o melhor de todos, encomendei um dos grandes com 15 minutos de duração.

- Êta, então vai ser dos melhores mesmo!

- Ora se vai. Falei com o Jonas, e ele está preparando o Testamento. Sabe que o Jonas tem jeito para essas coisas, né? E conhece todo mundo, é um gozador como ninguém.

- Você sabe mesmo escolher as pessoas certas.

- É, o Judas vem de Salvador, pois o que Cosme faz aqui não tem animação nenhuma. Em dois minutos já queimam tudo, e a festa mesmo fica por conta da molecada que sai arrastando os restos pelas ruas.

- Cosme há tanto tempo no ramo, já deveria ter melhorado o negócio. Do jeito que vai um dia desses fecha as portas.

- Se não mudar, no próximo ano não terá nenhum freguês. O Mário não está satisfeito, e tá querendo arranjar um outro fogueteiro.

- Isso mesmo! Hoje em dia devemos renovar nossos métodos, para continuar crescendo.

- O papo tá bom, mas, tenho outras coisas a fazer. Outra hora conversamos melhor.

- Eu também tenho que ir dar uma ajuda ao Correia, ele está preparando as escoras para bater a laje no sábado. Vai ter uma feijoada gorda, apareça lá.

- Vou ver se levo mais alguns companheiros tá!

- Ótimo! - e despediram-se.

Chegou o sábado e todos encontravam-se na casa de Correia, eram mais ou menos vinte homens à pilheriar uns com os outros.

- Vamos logo com essa merenda, seus molengas, sobe logo essa massa que o feijão já está pronto, né comadre?

Dona Altiva, mulher do Correia, sempre sorridente, respondia com ironia.

- Vocês vieram aqui para trabalhar ou para conversar? Deixem de lorota e me aprontem logo essa laje, senão, não tem feijoada certa, nem torresmo. - e caiam na risada.

- Vamos logo Nivaldo, mexe essa massa.

- Mexer não é comigo não Tonho, é com o Jonas, eu só traço! - e as risadas dobraram.

- Não se preocupem, vocês me pagam no Testamento do Judas - afirma Jonas - e não vou aliviar pra ninguém!

- Vocês foram bulir logo com quem - disse Carlos - ele leva a sério mesmo vocês vão ver!

- Que nada... Ele é mais de fritar bolinho na praça - disse Curió e mais uma série de gargalhada.

Essa brincadeira continuara até o final da feijoada quando Tonho falou:

- Dona Altiva, essa feijoada hoje tava pra lá de ótima! A senhora mudou o tempero ou foi a fome que deu esse sabor especial?

- Ô seu corno de uma figa, tá querendo me chatear, é?

- Calma tia, eu só tava brincando, a senhora sabe que te amo muito, e que nessa Bahia não existe feijoada melhor! Que a Maria não me escute - disse ele baixinho.

- Bom, nós já vamos. Pessoal vamos bater em retirada acabou a moleza!

- Vão com Deus, que Jesus abençoe a todos. - disse D. Altiva - Ah! E não esqueçam de ir à Procissão de Ramos amanhã!

- Tá certo tia. Vamos cortar algumas palhas de palmeiras e cedinho estaremos distribuindo os ramos.

Às oito da manhã, estavam todos com seus ramos em mãos, na Paróquia de Nossa Senhora da Penha, e o padre Zacarias pregava.

- Caríssimos irmãos.

"Hoje é o domingo que antecede a semana da Páscoa. Nos lembra a entrada de Nosso Senhor Jesus Cristo, montado num jumento, em Jerusalém, onde todos seus seguidores e admiradores cortejavam com ramos a sua passagem pelas ruas estreitas da cidade. O Mestre, ia a frente da multidão que o saudava dizendo: "Hosana ao Filho de Davi". Enquanto outros gritavam: "Salve o rei de Israel". Presenciando de perto, os fariseus coléricos comentavam entre si "Estais vendo que nós não estamos conseguindo nada. Reparai como todo mundo corre atrás dele!". Jo. XII v. 19.

Era uma pura verdade. Os visitantes vindos da Grécia, de outros lugares, queriam conhecer Jesus. Queriam conhecer o homem que fazia "sinais" como: a cura do cego de Jericó e a ressucitação de Lázaro. O homem que mandava amar uns aos outros, mandava amar, até os seus inimigos. O homem que é a Luz do Mundo. O Messias.

O Mestre seguia silencioso e preocupado com os acontecimentos trágicos que viriam em breves dias, mas seus amigos e discípulos estavam jubilosos certos de que era chegado o momento tão esperado. "O Reino de Deus". Jesus porém disse a André e Filipe "É chegada a hora em que o Filho do Homem é glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, ficará só, mas se morrer, produzirá muitos frutos" Jo. XII. V. 23 e 24.

Então meus caros irmãos, Jesus era a semente que deveria morrer para que suas obras florescessem e perpetuassem. Estava escrito. Jesus ainda não sabia como, e no momento em que foi mostrado, Ele disse: "Pai, se quiseres, afastes de mim esse cálice: contudo não se faça a minha vontade mas a Tua" Lu. XXII v. 42. Mas, apesar da angústia, Jesus orava com maior instância, a ponto do suor tornar-se grossas gotas de sangue e escorresse por terra. No entanto meus caríssimos irmãos, Jesus se manteve firme, diante do Tribunal dos sumos sacerdotes e escribas e também diante de Pilatos e Heródes. Ele não permitiu que seus amigos fossem igualmente culpados. Ele assumira toda a culpa, por todos.

Já crucificado bastante enfraquecido, o Sublime Mestre, ainda teve forças para dizer: "Pai, perdoa-lhes por que não sabem o que fazem". É aí meus irmão, que está a máxima do Cristianismo, perdoar. Perdoar sem ressentimentos, perdoar por amor.

E nós, estamos perdoando? Estamos seguindo fielmente os ensinamentos do Mestre? Certamente que não. Por que? Por que não perdoar e esquecer os dissabores do passado? Por que? Reflitam sobre isso com sinceridade e muito amor.

Que o Senhor vos abençoe."

O sermão do padre Zacarias, tocou profundamente os sentimentos dos adeptos principalmente o de Carlos, que saiu muito pensativo com tudo que ouvira.

Em casa, ao deitar, dividiu a preocupação com Margarida, esposa dedicada que sempre tinha uma solução para os problemas que surgiam.

- Margarida, o que você achou do sermão de hoje?

- Muito bem aplicado para os dias de hoje, onde a revolta e vingança estão sempre juntos.

- Sim, mas não é só por isso.

- O quê você está pensando? Eu notei que ficou muito longe... Sei lá, pensativo, depois que saiu da igreja.

- É mesmo, estou preocupado com o que fazemos durante todos esses anos.

- Como assim?

- Veja só, já se passaram quase dois mil anos, e nós ainda não perdoamos o Judas, continuamos queimando-o, estourando seus membros e cabeça e nos divertindo enquanto o Mestre já perdoou a todos. Você não acha isso errado?

- Pensando bem... Você tem razão, se Judas tivesse premeditado a traição, não teria cometido o suicídio. Ele provavelmente foi vítima de circunstâncias adversas criadas pela sua imprudência. Veja bem, o padre falou que Jesus disse que a semente tem que morrer para produzir frutos, mais ou menos isso, então, se Judas não o tivesse incriminado, os sumos sacerdotes arranjariam outro meio de incriminá-LO, aliás era isso que eles sempre procuraram.

- É isso mesmo Margarida, uma coisa eu tenho certeza.

- O que é?

- Não vou mais queimar o Judas como tenho feito há tantos anos!

- O que você vai fazer criatura? Estamos a poucos dias do Sábado de Aleluia e todo mundo fica esperando pela queima do Judas.

- Ainda não sei, mas o Senhor vai nos iluminar uma idéia.

- Deus te abençoe meu filho, Deus te ouça.

- Vamos dormir que já é tarde.

Domingo pela manhã, Carlos ainda não sabia o que fazer, mas sabia que tinham que mudar. As pessoas passavam por ele e perguntavam:

- Como está o Judas desse ano? Você prometeu que será melhor.

- Vai sim - respondia Carlos sem saber como.

- Já comprei quatro grades de cerveja, e pedi à Maria para preparar um sarapatel. Disse Josías.

Na terça-feira, Carlos resolveu chamar o Jonas e lhe contar o que estava acontecendo, expôs tudo o que havia pensado após o sermão, e lhe pediu para mudar o Testamento.

- Mas como Carlos? Você ficou louco?

- Não, não estou louco, só acho que devemos mudar e passar um pouco do que o Mestre nos deixou.

- Pensando bem, seria uma boa idéia, só não vejo como.

- Que tal se abrirmos o jogo para o padre Zacarias?

- Acho uma boa idéia, ele pode nos ajudar e muito. Vamos lá.

E foram os dois, colocar o padre a par de tudo. O reverendo amou a idéia de mudança e resolveu colaborar e começar a expor várias sugestões. Na quarta-feira, já tinham um novo perfil para o Judas de Sábado de Aleluia. Jonas tratara de refazer o testamento, e Carlos viajou para Salvador, afim de solicitar uma modificação para o Judas.

Então chegou o dia tão esperado, o Sábado de Aleluia. Carlos, Margarida e Jonas, estavam um tanto preocupados com a aceitação da mudança por parte do público, por outro lado um pouco confiante, pois a novidade certamente iria impressionar à muitos.

Desta vez o Judas só seria visto na hora, o Carlos o envolveu com um lençol e colocado no seu altar, chamava a atenção a todos que passavam. Haviam vários vendedores ambulantes pela praça onde se realizava a festa, eram carrinhos de pipocas, de churros, algodão doce, sorvete, milho cozido, acarajé e muitos outros. As crianças corriam de um lado para outro a se esconder uma das outras, moças e rapazes se paqueravam com olhares insinuantes enquanto os idosos lembravam seus tempos. Luzes cobriam todo o espaço da praça enfeitada por bandeiras multicolores que vibravam conforme o vento, em um dos lados da praça estava armado um pequeno palco onde na hora marcada Carlos iria dar inicio as apresentações da festa. E, como fora combinado, às vinte e uma horas lá estava ele, com um belo chapéu levemente quebrado na frente a dar boas vindas.

- Senhoras e senhores, boa noite!

- Boa noite!... - todos responderam com grande euforia.

- É isso aí, vejo que a festa está radiante de moças e senhoras bonitas e rapazes elegantes. É isso aí pessoal vamos aproveitar. Esse ano temos algumas novidades que vocês conhecerão durante a programação da festa, e prá começar vem ai João Pequenos e seus oitos baixos...

Entraram no palco um trio que começou a tocar alegremente para todo aquele povo. A cerveja rolava bonito, na tenda de Josias o sarapatel cheirava longe, por outro lado, o churrasquinho de gato não fazia por menos ao lado dos queijos tostados. Era só alegria.

Era quase meia noite quando Jonas subiu ao palco, sobre vivas e assobios. Acenou com os braços e agradeceu.

- Obrigado, muito obrigado mesmo, vocês não sabem como é bom participar desta festa todos os anos. E principalmente esse que tem muitas surpresas - aplausos e assobios.

- Temos aqui ao lado, o baú do Judas e dentro dele está a herança de vocês. Por família é claro.

- Por família?

- E essa é uma das mudanças do Testamento do Judas. Vamos começar.

- Pra família do meu amigo Lourenço, muito estimado e agradecido por todos vocês, deixo o brilho do sol - foi lhe entregue um lindo relógio em forma de um sol.

- Pra família do meu amigo Curió, deixo o cantar dos pássaros - foi entregue um CD.

Assim Jonas chamava família por família e entregava algumas lembranças.

Carlos aproximou-se do Judas e descerrou-o, era um Judas bonito bem vestido de branco e azul. Trazia nas mãos a figura de uma pomba. Foi bastante aplaudido.

- Esse é nosso Judas da Paz, - falou Carlos - que implora o nosso perdão. Por muitos e muitos anos, o amaldiçoamos e zombamos muito dele, esse ano, após o sermão do nosso vigário, Pe. Zacarias, que nos chamou a atenção para o perdão, fiz uma análise profunda sobre o Judas Traidor. E com a ajuda do Jonas e do nosso pároco, mudamos para o Judas da Paz. Doravante não mais comemoraremos como antes. Temos que saber perdoar para sermos perdoados. - aplausos e assobios de todos os lados. - E agora a ASCENSÃO DE JUDAS!

E quem vai fazê-lo ascender, é o nosso vigário! - o padre aproximou e falou:

- Queridos amigos, quando Carlos e Jonas me procuraram e relataram o que estava pensando e sentindo, sinceramente eu fiquei maravilhado com a idéia de mudar a tradição, e o Senhor certamente ficará, ou melhor, está muito feliz por estas atitudes que espero, se espalhe pelo resto do país. Que Deus os abençoe. Onde devo acendê-lo?

- Aqui - Carlos o guiou, cheio de emoção.

O vigário acendeu um pavio e dentro de instantes, o Judas subia, impulsionado por quatro foguetes e, ao chegar no alto, iluminou-se todo. Fogos de artifício multicoloridos saíam por todo o corpo do boneco, Judas. Uma cena que ninguém havia visto antes. Todos ficaram maravilhados com a beleza. A escultura do Judas fora feita carinhosamente com isopor e papelão tornando a combustão rápida. Num dado momento, Lucinha avistou uma flâmula descendo.

- Olhem lá! Vejam aquilo! Há algo escrito.

- É mesmo, esperem aí, - falou Júlio - já vi é ... PAZ e AMOR.

- Bravo!... Lindo!... Lindo!... - ouvia-se os gritos vindos de todos os lados.

Alguns mais eufóricos abraçavam Carlos e Jonas, enquanto algumas lágrimas rolavam das suas faces.

 

Alberto Pinho, em 29/03/2002




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